Pirão D’água Escaldado com Linguiça Frita da Vó Dilma

Muito tem se falado do comfort food na blogosfera gastronômica Brasil afora. Como é um conceito relativamente novo, usa-se comfort food pra qualquer comida feita geralmente numa mistura só, consumida normalmente no inverno e servida num recipiente descolado. Mas a idéia do comfort food traz além destes ingredientes, uma comida nutricionalmente rica, as vezes até caloricamente forte, e uma carga emocional atrelada. Estes pratos estimulam a memória gustativa e remetem o seu paladar a lembranças da sua infância, ligam a comida feita pela sua avó ou sua mãe, por exemplo; é mais das vezes nostálgica. Comfort food é uma comida perfeita para uma quarta-feira cinzenta, quando você está triste, num dia em que se lembram as Avós e os Avôs, e fazem você salivar saudades.

Vó Dilma Silva Martins, Vô Ademar "Maca" Pedro Martins e este que vos fala, há quase 30 anos

Vó Dilma Silva Martins, Vô Ademar “Maca” Pedro Martins e este que vos escreve, há quase 30 anos

Fiz esta receita e escrevi este artigo no dia 26 de julho, Dia dos Avós no Brasil e em Portugal, e queria fazer uma homenagem aos meus avós maternos. Naturais de Biguaçu, município da região metropolitana de Florianópolis, criados à base do peixe e farinha e da cultura açoriana, não só me criaram numa mesa farta de sabores da culinária local, apesar de muito pobres, como me ensinaram a dar valor valor pra simplicidade de sua gente. Talvez você não entenda muitas referências deste texto, alguns ditados, palavras, mas usarei-os deliberadamente, como se estivesse na velha mesa de madeira dos Silva Martins, ao pé do fogão.

"Farinha de mandioca cria gente tola." ditado local

“Farinha de mandioca cria gente tola.” ditado local

Uma das coisas que minha vó fazia era o Pirão D’água Escaldado. Ao contrário do pirão de feijão e o feito com o caldo do peixe, o pirão de nylon, como também é conhecido, é feito somente com a farinha de mandioca e água fervente. Alguns temperam com um pouco de sal, misturado na própria farinha, alguns temperos como cheiro verde, pimenta e alfavaca (um dos tipos de manjericão). Come-se acompanhando geralmente uma carne ou embutido frito na banha de porco e utiliza a gordura como cobertura, digamos assim.

Eu dei uma pequena incrementada, mas sem tirar a simplicidade e a carga de boas lembranças que este prato me traz. E o resultado você vê a seguir.

Ingredientes

  • 50g de manteiga sem sal
  • 100g de linguiça defumada
  • 50g de bacon
  • 2 xícaras de farinha de mandioca
  • 1/2 litro de água fervente
  • 1 tablete de caldo de carne
  • um pouco de salsinha

Como fazer

Muito simples. Primeiro você esquenta bem uma frigideira e frita a linguiça Blumenau e o bacon picados junto com a manteiga (você pode, e recomendo fortemente, utilizar banha de porco no lugar da manteiga, caso encontre pra vender na sua região).

Este é o ponto do pirão: cremoso

Este é o ponto do pirão: cremoso

Deixe em fogo médio fritando enquanto num bowl ou prato bem fundo coloca a farinha de mandioca, um pouco de sal, a salsinha picada e vai derramando aos poucos a água fervente com um tablete de caldo de carne dissolvido.

Vá mexendo e colocando a água até atingir a textura de um creme.

Depois é só colocar por cima do pirão a linguiça e o bacon fritos, despeje também um pouco da manteiga. Ela servirá pra dar um gosto a mais no pirão e conforme você vai comendo ela vai “infiltrando” na comida.

"Esse guri tá que nem a Luzia:  não queria, não queria, no fim até as espinhas comia" ditado biguaçuensse

“Esse guri tá que nem a Luzia: não queria, não queria, no fim até as espinhas comia” ditado biguaçuensse

E foi assim que no Dia dos Avós eu lembrei da minha estirpe, forjada na cepa da vida com muita, muita saudade.

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Autor:Daniel Becher

Catarinense de nascimento, gaúcho de coração. Aprendiz de churrasqueiro e entusiasta das culinárias regionais.

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10 Responses to “Pirão D’água Escaldado com Linguiça Frita da Vó Dilma”

  1. 27 de julho de 2012 at 10:24 am #

    Que lindo post, enchi os olhos de lágrimas aqui.
    Esse prato me parece daquele tipo que depois que tu comes, encostas no sofá e dá um pequeno sorriso de satisfação. Acho que funciona como um bom abraço.
    Fiquei com vontade de fazê-lo, não apenas pelo sabor que parece ter, mas também pela sensação de afeto que conseguiste transmitir no post.
    Bjs.

  2. 27 de julho de 2012 at 10:37 am #

    PIREI COM O TÍTULO DO POST E VIM CORRENDO LER!

    Acreditas que uma das comidas que mais lembram a minha vó, QUE TAMBÉM É DILMA, é o pirão d’água???

    Chamamos esse pirão carinhosamente de “papuna”. Quase sempre ouço da Vó: “Quando vamos comer uma papuna?” Amo de paixão esse prato! Além de linguiça também comemos com peixe “do sol” frito… fica uma delícia!

    Parabéns pelo post!

    Eu, como legítima manezinha, também criada a base de farinha de mandioca, lá pelas bandas de Paulo Lopes, esses já são meus outros avós, morri de saudade!

    • 27 de julho de 2012 at 10:45 am #

      Sério? caramba, que coincidência!

      Bah, foi a primeira vez que fiz o pirão, é uma delícia isso. Por que a gente vai perdendo essas coisas né? A gente come tanta coisa diferente nos restaurantes por aí e nem se dá conta que o simples, o tradicional, o que a gente comia no passado é tão bom.

      Não sabia do nome “papuna”, mas bacana saber! Na verdade mesmo minha avó fazia mais com o peixe frito do que com a linguiça, tudo frito na banha do porco pra sobrar o caldinho :)

      E por falar no terceiro polo (hahaha) vou almoçar lá hoje, no Engenho.

      Abraço!

      • 27 de julho de 2012 at 2:51 pm #

        Sério que você conhece o terceiro polo? Adoro o Engenho… acompanhei o crescimento do estabelecimento!

        Sobre a “papuna” só vi nossa família chamar assim… ahhaha

        Infelizmente vamos, aos poucos, perdendo nossas origens gastronômicas, mas de vez em quando me “obrigo” a voltar às origens!

        • 27 de julho de 2012 at 2:54 pm #

          Ah, para esclarecer, chamamos de “pamuna”… me confundi ;)

        • 28 de julho de 2012 at 9:30 am #

          Conheço pouco, na verdade. É que eu tava vindo aqui pra Porto Alegre e queria passar ali pra almoçar. MAs tava muito cheio, deixei pra almoçar em Sombrio haha

          Acho que na volta segunda-feira eu almoço ali, deve estar mais tranquilo :P

  3. 30 de julho de 2012 at 7:52 pm #

    Nunca me esqueço, certa vez uma senhora idosa, que é minha vizinha, pediu pra eu ir ao mercado pra ela. Ele queria que eu comprasse farinha a ela, mas deixou BEM claro: TEM que ser farinha Sertaneja.

    Meu avô também tinha muito disso. Adorava fazer um pirão e jogar uma malagueta por cima.

    São recuerdos, doces recuerdos…

  4. mauricio
    9 de setembro de 2012 at 4:20 pm #

    Oi, adorei a receita e tudo o que dela evoca. Mas por favor, não é “bowl”, é tigela.
    abs

  5. carlos
    21 de maio de 2014 at 6:25 pm #

    conheci a dona dilma, irmã de minha tia juçá, conheço a receita da minha maneira, porem, vou faer ao estilo da d dilma
    abraços

  6. Maria Elena
    1 de junho de 2014 at 8:41 am #

    Gostei do teu trabalho e simplicidade, e especialmente da forma que colocou a receita.
    Eu sou gaúcha de nascimento e catarinense de coração.
    E acredito que o teu churrasco deve ficar bom como esta receita!
    Eu vou procurar dar uma “treinada” nessa receita thê!
    Depois eu te conto guri.
    Forte abraço índio velho!

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