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Bar do Vadinho: não é manezinho quem nunca comeu lá

Nove em cada dez pessoas que me falam sobre o Bar do Vadinho dizem que o lugar é simples. Simples e saboroso. Não é que o restaurante seja simples. Ele só não tem a mania de sofisticação e grandeza que outras casas têm pra trazer a França, Itália e qualquer comida contemporânea para o seu cardápio. Aliás, o Vadinho não tem cardápio. Um restaurante que não tem cardápio e lota das 11 às 16h é qualquer coisa que queiramos classificá-lo, menos simples.

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Se você for visitá-lo na alta temporada(15/12 à 15/03) até vai se deparar com algum folheto plastificado mostrando algumas opções como o rodízio de lulas, camarões, alguns peixes diferentes, mas de março à dezembro, quando ele abre apenas aos sábados e domingos, o prato da casa é um só.

Pra entender o Bar do Vadinho precisa-se conhecer o próprio. Vadinho é filho de pescadores e fez desse o seu ofício a vida toda. Cresceu pescando nas águas do Sul da Ilha e aos 17 anos de idade já singrava os mares da Bahia até a Argentina em busca de pescado para a indústria. Durante 30 anos fez desse o seu ganha pão, assim como boa parte dos homens e mulheres da sua localidade. A casa onde hoje está o seu restaurante é da própria família há nada menos que 114 anos. Simples sou eu me mudei ano passado e já quero trocar de apartamento. Simples é esta minha alugada morada que é feita do pior tipo de cimento, a casa do Vadinho é feita pedra e tem como argamassa óleo de baleia, artefato comum naquela época.

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Vadinho anda, se veste e fala de forma simples. Mas não é na simplicidade que sua grandeza se traduz. Em poucos minutos e com uma fluidez de um papo muito envolvente ele linka a mesa ao lado, de um casal de mais idade, frequentadores da casa desde sempre com a nossa. “Hoje é a primeira vez deles aqui”, disse ao casal. “Acho que vão gostar e voltar”. O casal confirmou com a serenidade de quem sabe que o simples legado é maior que qualquer palavra.

Mas vamos falar de comida porque se deixar faço que nem o Vadinho: a tarde passa voando e nem notamos que aguardamos uma hora pra uma mesa, e mais algum tempo para recebermos a comida. Isso mesmo, nem notamos que esperamos quase duas horas desde que chegamos até comermos. A casa enche após ao meio-dia e até as quatro da tarde a concorrência é grande. Tudo ali é feito na hora, absolutamente na hora, não há nada pronto. A bem da verdade nem o peixe está congelado, tudo o que é servido é pescado ali por perto. “Eu tenho uma garoupa ali no freezer há quatro meses. Posso fazer, se alguém insistir. Mas prefiro que vocês comam o que eu tenho fresco, que é melhor e ainda é barato”.

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Como disse no início do post o Bar do Vadinho oferece o “prato da casa”. Esse prato custa R$27 por pessoa e pode ser repetido quantas vezes você quiser, embora eu duvide que com a fatura em que é servido alguém consiga, de fato, pedir mais. Na mesa vem: arroz branco, feijão, pirão de caldo de peixe, batata frita, salada mista, peixe frito em postas, filé de peixe à milanesa e “estopa” de arraia, que é uma arraia desfiada ensopada.

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Não sei se devo falar exatamente de cada coisa que é servida, mas poderia definir como “excelente” todos os ítens. O arroz, bem temperado e preparado; o feijão: sal, alho e só; a batata frita que é batata de verdade e não aquelas congeladas de supermercado. Gostinho de batatinha feita em casa; o pirão tem o tempero da minha avó, comfort food na veia; a tal da arraia desfiada, que há tempos não via em nenhum restaurante ilhéu, mais tradicional impossível, é de comer abraçando o Franklin Cascaes.

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O peixe frito em postas era Gordinho. Temperado com sal e bem frito, sequinho, sem excessos de gordura; à milanesa tem o filé de peixe-espada. Esse não dá tempo de agradecer, elogiar ou abraçar ninguém, é pra lamber o prato.

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Tudo, tudo feito ali é gostoso. Tudo o que o Vadinho oferece tem gosto de Florianópolis, pode-se afirmar sem qualquer dúvida que esta comida é a comida do mané, este é o retrato da nossa terra e da nossa cultura. Sem medo nenhum de errar afirmo que é a cara da cidade. Fora dos holofotes, verdade, mas nem por isso menos autêntico.

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O Vadinho também oferece o seu tradicional pastel de camarão. Assim como o restante da comida, tudo caseiro. A exemplo da batata-frita, o pastel tem gosto de feito em casa, muito bem recheado e bordado de camarão, sem mixarias.

Nada disso era simples. Pode parecer simples porque é o que fomos (eu pelo menos fui) ensinado a comer quando pequeno. Cresci chupando espinha de peixe e farinha de mandioca era ítem indispensável na despensa. Mas nenhum ítem deste prato é simples, é comida feita com a complexidade de uma cultura que levou décadas pra ser moldada. Tradição, jeito de preparar os alimentos, temperos que tomaram muito tempo nas mãos habilidosas das cozinheiras pra ficarem do jeito que estão. Simples é aquela comida pronta, aquele salmão congelado que você come num restaurante de meia pataca e que te cobra um rim. Simples é nossa mania de reduzir o que não é rebuscado.

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Já terminávamos a refeição quando o casal da mesa ao lado passou e perguntou: “o que vocês acharam? gostaram da primeira visita?” só consegui pensar que a vida é muito curta para as novas frivolidades gastronômicas. Aquele casal, assim como eu, dirigiu vários quilômetros de São José até o Pântano do Sul e faz isso com bastante frequência porque eles sabem valorizar o que é bom, simples ou não.

Ao Vadinho, essa figura lendária e folclórica do Sul da Ilha, vida longa para que dê tempo de todos vocês, meus leitores, conhecê-lo e se tornarem assíduos do que julgo uma das melhores experiências gastronômicas que já tive na vida. Simples assim.

Bar do Vadinho

  • Rua Manoel Vidal, 305. Pântano do Sul, Florianópolis.
  • (48) 3237-7305
  • Aceita cartões

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3 Comentários

  • Responder
    Ramila
    4 de dezembro de 2014 at 3:47 pm

    Como sempre, o texto está sensacional! Eu amo a Vadinho, sempre vou lá, é demais! Mas eu peço o pastel de berbigão e não o de camarão, fica a dica! E tb a caipirinha de cachacinha do sertão do Peri, é pra matar, e pra comer “abraçando no Franklin Cascaes”, dizendo pra ele “eu gosto de ti pra c*”. Parabéns!

  • Responder
    Carlota
    7 de janeiro de 2015 at 12:04 pm

    Esse é bom…essa arraia aí… é pacabá…. hehe… boa dica… sempre que posso vou lá… Abços..

  • Responder
    Alex
    24 de janeiro de 2015 at 1:16 pm

    O bar do vadinho é a cara do ilhéu com certeza!
    É simplesmente sensacional a atenção dele no atendimento e as suas estórias também, fazendo questão de dizer que o pastel foi a própria filha que o fez, com MUITO recheio por sinal. Da vontade de repetir só pra por na marmita e trazer para casa depois hehe.

    É o “PF” mais matador há por aqui!

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